domingo, 19 de fevereiro de 2012

Mafalda (1)


Trechos do Manifesto Antropofágico

Só a antropofagia nos une.
Socialmente, Economicamente,
Filosoficamente.                                                                                    *  


Única lei do mundo. Expressão mascarada
de todos os individualismos, de todos os
coletivismos. De todas as religiões. De
todos os tratados de paz.


Tupy, or not tupy that is the question.


Só me interessa o que não é meu.
Lei do homem. Lei do antropofago.


Foi porque nunca tivemos gramáticas, 
nem coleções de velhos vegetais. 
E nunca soubemos o que era urbano, 
suburbano, fronteiriço e continental. 
Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil.


Queremos a Revolução Caraíba. 
Maior que a Revolução Francesa.                                    
A unificação de todas as revoltas eficazes                                    
na direção do homem. Sem nós a Europa 
não teria sequer a sua pobre declaração 
dos direitos do homem.


Antes dos portugueses descobrirem o Brasil,
o Brasil tinha descoberto a felicidade.


A alegria é a prova dos nove.


Oswald de Andrade
* Abaporu "homem que come" de Tarsila do Amaral

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Cortar o tempo

Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra 
vez, 
com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente.



Carlos Drummond de Andrade


sábado, 24 de dezembro de 2011

Epifanias Pessoanas (8)

A Aranha

A aranha do meu destino 
Faz teias de eu não pensar. 
Não soube o que era em menino, 
Sou adulto sem o achar. 
É que a teia, de espalhada 
Apanhou-me o querer ir... 
Sou uma vida baloiçada 
Na consciência de existir 
A aranha da minha sorte 
Faz teia de muro a muro... 
Sou presa do meu suporte.

Fernando Pessoa

Trechos (1)

"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."


Rui Barbosa

domingo, 30 de outubro de 2011

Inconfesso Desejo

Queria ter coragem
Para falar deste segredo
Queria poder declarar ao mundo
Este amor
Não me falta vontade
Não me falta desejo
Você é minha vontade
Meu maior desejo
Queria poder gritar
Esta loucura saudável
Que é estar em teus braços
Perdido pelos teus beijos
Sentindo-me louco de desejo
Queria recitar versos
Cantar aos quatros ventos
As palavras que brotam
Você é a inspiração
Minha motivação
Queria falar dos sonhos
Dizer os meus secretos desejos
Que é largar tudo
Para viver com você
Este inconfesso desejo



Carlos Drummond de Andrade

sábado, 15 de outubro de 2011

Lua Adversa

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.


Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.


E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...


Cecília Meireles

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Ismália

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

Alphonsus de Guimaraens

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.


Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

Cecília Meireles

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto 
Desses que vivem na sombra 
Disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida. 


As casas espiam os homens 
Que correm atrás de mulheres. 
A tarde talvez fosse azul, 
Não houvesse tantos desejos. 


O bonde passa cheio de pernas: 
Pernas brancas pretas amarelas. 
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração. 
Porém meus olhos 
Não perguntam nada. 


O homem atrás do bigode 
É sério, simples e forte. 
Quase não conversa. 
Tem poucos, raros amigos 
O homem atrás dos óculos e do bigode. 


Meu Deus, por que me abandonaste 
Se sabias que eu não era Deus 
Se sabias que eu era fraco. 


Mundo mundo vasto mundo, 
Se eu me chamasse Raimundo 
Seria uma rima, não seria uma solução. 
Mundo mundo vasto mundo, 
Mais vasto é meu coração. 


Eu não devia te dizer 
Mas essa lua 
Mas esse conhaque 
Botam a gente comovido como o diabo. 


Carlos Drummond de Andrade